quarta-feira, 14 de março de 2012

No banquinho com o Pai



Pai! Cheguei. Agora tudo irá ficar bem, eu sei.
Como é bom poder sentar-se ao seu lado.
Em outro banquinho meu coração estaria saltitante.
Aqui falo abertamente dos meus temores.
Compartilho as minhas dores, como palha ao fogo, elas desvanecem.

Pai. Ouço a sua voz e sinto o seu calor.
Experimento o seu amor e aquieto-me.
Penso em Enoque, Elias, Abraão, Moisés e Davi.
Como eles quero andar contigo. Passo a passo.
Que seja um andar ereto, perfeito e santo.

Pai. Sua doce voz é como música que faz levitar a alma.
Na sua companhia ouço o vento e o barulho das folhas das árvores.
Como é belo o gorjeio dos pássaros. Eles exaltam o teu nome.
O pulsar do seu coração rompe o silêncio e por momentos o meu segue o ritmo do seu. É magnífico. Não consigo entender tanto amor. Desfruto-o.

Soprem os ventos. Rompam todos os sons da terra. Ondas quebrem violentamente nas rochas. Animais corram diante do temporal. Homens gritem de dor por causa dos seus temores. Na presença do altíssimo Reina Paz.

O mal de cada dia me chama. Não quero deixar o banquinho. Vou permanecer um pouquinho mais ao seu lado Pai. Sei que nunca me deixarás e que a cada passo comigo seguirás. Neste cantinho e neste banquinho quero sempre estar. Ah! É Muito bom.

Amo-Te.

Daniel C. Bonfim
Campinas, 14Mar12. 

terça-feira, 6 de março de 2012

SUPERMÃE

 

Lá se vão mais de vinte e cinco anos. Normalmente lembranças ocorridas há tanto tempo assim não fazem parte do nosso cotidiano. Mas, hoje me deparei com uma mãe e o seu filho e como não poderia deixar de ser o passado se fez presente.
Os jovens com seus sonhos e incertezas muitas vezes se lançam em busca de uma carreira profissional por influência dos amigos ou por falta de uma melhor oportunidade. Este jovem em especial que farei menção, necessariamente não se encaixaria em nenhuma das duas hipóteses. O fato é que ele demonstrava grande impulsividade, naturalmente que esta característica pediria uma profissão em que a emoção estaria constantemente presente.
Certamente que o local para o desempenho da eletrizante profissão contaria muito. A onde é que se encontram grandes aglomerados de pessoas, circulação intensa de veículos e consequentemente imperam as ações ilícitas de toda ordem? Nas grandes metrópoles.
Nelas os sonhos se multiplicam. Pessoas dedicadas ao trabalho e até mais do que o necessário. Negligenciam os seus e a si mesmo. Coragem e determinação é a marca que predomina. As alegrias se fundem com as tristezas. Esperanças com a desilusão. Mas somente alguns desistem.
Policial. A carreira abraçada foi a de policial. Moço com o tino aguçado, mas inexperiente. Corajoso, mas imprudente. Assim como alguém que se entorpece com uma bebida com pouco teor alcoólico, mas que faz com que os pés fiquem leves e de rumo incerto. Lá estava o defensor dos fracos e oprimidos dando os seus primeiros passos na vibrante profissão.
Em um dia aparentemente como qualquer outro, ao final da tarde o policial buscava fazer valer à lei. Só. Sem o devido apoio de companheiros e equipamentos. Dois jovens saboreavam o cigarro dos incautos. Para aqueles longínquos dias umas séries de afirmativas se faziam contra tais usuários, as quais não cabiam contestação.
No entanto, neste caso específico a verdade foi cruel. Os dois jovens não se deixariam serem pegos assim tão facilmente. Correram. Uma arma mortal foi vigorosamente empunhada. Determinado, sem nem se dar conta da bestialidade que estava preste a praticar, o garoto acionou o gatilho. Um tiro surdo se fez ouvir.
Socorrido com presteza e tendo recebido os cuidados possíveis dos anjos vestidos de branco. O chumbo maldito odiava o defensor do povo e cumpriu com o seu maléfico desígnio.
Para os seus amigos, companheiros e a doce esposa não foi um dia qualquer, mas fatídico e inesquecível dia.  Dia de dor e medo.
Partiu e deixou a bela mulher e o filho em tenra idade.
Uma praça pública com um largo passeio. E diante dela uma das avenidas principais da pequena, mas importante cidade interiorana. Nesta avenida os veículos circulam lentamente, bem como assim os jovens e cada qual em busca do par ideal.
Foi ali que a vi. Como faz a mais de vinte e cinco anos, aonde quer vá, o seu filho esta ao seu lado. A sorte foi malfazeja consigo. O tão esperado filho veio, amou-o profundamente, como poucas amaram. Já no nascimento ficou patente a desventura. Profundas limitações físicas e mentais. Assim cresceu. Mas também cresceu incrivelmente a sua simpatia e alegria.
A aparência da criança e agora do jovem repele os habitantes do mundo de perfeitos. Nos filmes e novelas, os apresentadores em geral dos programas televisivos, todos tem que serem belos e ponto.  Nas propagandas aqui e acolá aparecem em segundo plano um que não seja da raça ariana. E somente aparecem por força de lei. Quanta hipocrisia!
Diante dos meus olhos o desventurado de beleza estética visualizou alguém e para ela correu desajeitadamente. Cena rara de aceitação do oposto. Aquela jovem mulher o abraçou vigorosamente. Durou apenas um minuto, mas pareceu uma eternidade, o abraço estava carregado de terno e profundo amor. Deu-lhe o afeto mais que merecido e somente então, ele se foi de braços dado com a supermãe.
Gesto digno de ser imitado? Sim. Possível? Sim. Mas e quanto ao amor sacrificial daquela mãe? Poucos poderão alcançar tal magnitude. Anulou-se como mulher. Esvaziou-se de si mesmo em detrimento do seu amado filho. Ele precisou dela por inteiro, e ela se deu sem reservas. Precisa dela por toda a vida ela já o tem dado. Até o fim.
“Melhor coisa é dar do que receber”, disse o mestre Jesus. Tenho sido tão egoísta. Deixo de dar e receber amor. Quando deveria aproximar, afasto-me das pessoas. A solidão se instá-la, então perco a benção da companhia.
“Ainda que uma mãe possa esquecer-se do seu filho ou rejeitá-lo, eu jamais esquecerei ou rejeitá-lo-ei”. Assim afirmou o escritor bíblico. Jesus Cristo na cruz é a prova cabal deste amor incondicional. Incomparável amor.
Hoje o meu amor é limitado e muitas vezes egoísta, mas será perfeito juntamente com a supermãe e o seu lindo filho quando no céu estivermos.
Até lá meus amigos.
Presidente Venceslau (SP), 27 de dezembro de 2009.

Daniel da Cruz Bonfim