Uma roda? Seria uma bela roda de ferro com um pneumático amortecendo os solavancos de uma carroça interiorana? Quem sabe o quê vem à mente ao falarmos de roda, seja uma imponente roda de madeira de um velho carro de boi? Pois é, você já percebeu que podemos continuar a especular falando da roda do automóvel popular, e dos luxuosos até os de altas performances, utilizados nas mais importantes competições automobilísticas. Incluindo se aí os caminhões e tratores.
Bem, na verdade falo de uma roda de amigos. Um grupo de pessoas. Não é um grupo qualquer, fechado, nem tão pouco seletivo. Na verdade os que vão se aproximando é que determinam se participarão ou não. Suas características básicas são a simplicidade e o total desprezo pelo relógio.
Ah! O relógio, você que nos mostra o início e o fim. Incomoda-nos e mostra a hora de chegar e de partir. Por que você tem que ser tão autoritário? Tão controlador. Vê se dá um tempo. Pare um pouco. Descanse. Se não pelo menos, diminua o ritmo. Vou te mostrar que é possível fazê-lo.
Imagine uma imponente casa interiorana de madeira. Construída na década de sessenta ou setenta. Pois é, já não é tão jovem, mas continua firme. Reformada, remodelada, alterada, pintada. Certamente pintada com tinta à óleo que preserva melhor a sua madeira das intempéries.
Paremos um pouco para nos lamentar e chorar. É que outrora tínhamos fartura de frondosas e belas árvores, e agora escassez. Árvores tais como: angico, faveiro, aroeira, jatobás, ipê-roxo, ipê-amarelo e a favorita para construções, a peroba. Está última madeira é dura, maciça, difícil de serrar, ainda mais quando as modernas serras elétricas não estavam disponíveis no mercado. O que imperava para a derrubada das árvores era o traçador, que era uma serra grande manuseada por duas pessoas. Os dois madeireiros identificavam as árvores pela sua copa, e diante da escolhida, ajoelhavam-se como pedindo perdão, ignorantes da extensão da atrocidade que estavam prestes a praticarem. Então, diante da indefesa e majestosa árvore, lançavam-se lentamente num ritmado vai-e-vem sangrando-a até a morte. Somente paravam quando ela caia inerte ao solo.
Depois de tombada, e após o grito de madeira, e de ser cruelmente esfaqueada sem nenhuma cerimônia e diante da sua família e coirmãs. No seu país, na sua terra e no seu quinhão. O corpo inerte, que outrora nos abençoava de multiformes maneiras, agora era lançada no carro fúnebre, ou seja, o caminhão madeireiro que seguia resoluto para o local do esquartejamento. A serraria. Elas, as árvores, as toras iam para as grandes serrarias e bem como as serrarias menores chamadas pica-paus e somente então as tábuas, as vigotas, os caibros e ribas ficavam a disposição do carpinteiro para usá-las nas construções das casas. E era aí que Antenor, o carpinteiro, usava com maestria o seu serrote afiado e previamente lubrificado com vela ou banha de bovino. Serrava e serrava como o mais puro dos inocentes. Nem se quer perpassava pela sua mente que era participe direto na matança inconseqüente. Nem mesmo o Paulo, o dono da futura casa se dava conta. É bem verdade que na velhice, agora consciente das mortes, até porque antevia a sua própria, lamentava-se. Mas desgraçadamente para as que partiram nada se poderia fazer.
A peroba é uma madeira altamente durável, a preferida para as construções, mas o angico também era muito bem quisto, mui especialmente pelas estradas de ferro. As serrarias produziam com abundância os dormentes, os quais eram usados para que neles fossem apoiados os trilhos. E sobre o trilho uma potente máquina puxa determinada dezena de vagões, carregados e pesados.
Que insanidade meu Deus. Quanto desperdício. Uma brutalidade desmedida, mesmo agora, escrevendo experimento as consequências desde extermínio ariano contra os judeus. Há um calor excessivo. Não há brisa, impera a pressão atmosférica, e avizinham-se as fortes pancadas de chuva da tarde. E com elas dissabores na caótica metrópole.
Então relógio, veja só, diante da bela e aconchegante casa de madeira há uma frondosa árvore viva. Como se fora um pássaro na gaiola, fora do seu habitat, fora da floresta, longe da sua gente. Mas mesmo assim generosamente ela oferta a sua proteção contra os raios solares da tarde.
Portanto é nesta sombra que temos uma roda especial. Roda esta alheia, indiferente a você déspota controlador do tempo. Indiferente também com a história, falar da segunda grande guerra, prá que? Temos você amiga árvore nos abraçando com sua sombra e entorpecendo a nossa mente.
É neste local precioso que a roda especial quase todas tardes se forma para lenta e despreocupadamente saborearem o tereré. Tereré é um refresco de mate que se toma com bombilha, preparado com água fria. É neste local quase sagrado, que de mão em mão a cuia transita e os amigos jogam conversa fora.
As histórias se repetem, mas são como se fossem contadas pela primeira vez. Há um clima celestial, é como se houvesse um fundo musical de um coro angelical a entoarem belas canções de louvor divinal.
Primeiro chega alguém com a cuia e a jarra cheia de água e gelo. Então, com o cerimonial próprio prepara-se o refresco, como se fora o momento antes de se servir o pão e suco da uva no memorial da morte, crucificação e ascensão de Jesus Cristo. Ali os irmãos, ou seja, os amigos pacientemente aguardam respeitosamente a sua vez de deliciarem o néctar dos deuses. Nem tanto pelo sabor, nem mesmo pelo frescor auferido. Mas a essência de tudo era a roda. Roda especial. Vizinhos, parentes e amigos em uma troca de calor intensa, sem nem mesmo se aperceberem de tal. Quanto mais subia a temperatura mais se precisava do refresco divino.
Em todo o tempo. Que estranho. Esqueça o tempo. Em total desprezo ao tempo, ou seja, ao relógio. Eles permaneciam juntos, em roda e na roda. Hoje, olhando aquelas rodas, me parece que sem saberem eles queriam voltar ao Édem. Desfrutar da companhia com o Pai. Que desejo maravilhoso. Pai se não podemos voltar, queremos ir para as mansões celestiais e estar contigo. Que possamos saboreá-lo, não somente as tardes, mas em todo o tempo. Opa! Lá não tem tempo. O relógio não existe, o imperador, o ditador foi ferido mortalmente, desapareceu.
Pois é, a roda especial existiu e pode continuar a existir. Seja debaixo de que árvore for, mas a melhor e incomparável roda é quando pudermos estar no abrigo eterno da Árvore da Vida. Onde o Deus Eterno permitira que nos refresquemos para todo o sempre da água que jorra do Rio da Vida e cuja fonte eterna sai do seu trono majestoso.
Até lá meus amigos.
Campinas (SP), 24 de dezembro de 2009.
Bonfim