Enquanto me deliciava com Machado de Assis discorrendo uma de suas crônicas, a sua peculiar maestria trouxe-me gentilmente alume as “reflexões de um burro”. Aflorou-me as reminiscências de um fato pitoresco e desgraçadamente triste, triste tanto para o “burro”, quanto enfadonho para o cavalo, cavalo mesmo.
O fato se deu com um jovem e o seu cavalo na bela cidade interiorana do estado de São Paulo. Jovem pela pouca idade, pelas feições e pelas atitudes, não que isto seja praxe dos jovens, mesmo nestes dias de tantas futilidades e aridez de espíritos. Lá estava eu, nos meus afazeres profissionais, quando soube do ocorrido com determinado jovem, que conduzia seu veloz veículo o qual era fruto da sua imaginação, pois na verdade sonhava de olhos abertos com um veículo de vários cavalos, potentes debaixo do capô. Ainda que fosse jovem, e não tivesse a força de um adulto, chicoteava como tal. O intento era claro, que o único cavalo puxasse sua já surrada carroça, como se fosse uma veloz biga. Mesmo não sabendo o que seria uma biga e que a mesma era puxada por dois cavalos. Bem, o fato é que no seu imaginário estava ele a conduzir um carro da fórmula um. Pobre “burro”. Pobre cavalo. Pobre Jovem.
Lá estava o “burro” jovem, ou, como queiram o jovem “burro” a chicotear o seu cavalo. Que também ostentava jovialidade, embora não parecesse, visto o pouco nutrimento. Para conferir sua magreza, bastaria fazer as contas do índice de massa corporal (IMC), que certamente o colocaria abaixo do peso ideal, ao contrário dos que se vendem nos leilões. Cavalos caríssimos, lindos e “gordos”. Entenda-se “gordos”, pelo fato de serem alimentados adequadamente. Finalizando, estes cavalos com pedigree sempre estão no peso ideal, são sempre sarados. Mas o fato é que o jovem condutor, no seu devaneio, sentindo a brisa no rosto ansiava por mais, mais e mais. Quanto maior a velocidade, superior a quantidade de brisa recebida. Afinal, havia muitos cavalos debaixo do capô. E obviamente não podia se furtar as sensações de prazer que tudo isto lhe proporcionava. Nada mais importava a não ser o que importava. Convenhamos, é próprio do ser humano querer sempre mais da velocidade e do que a vida pode dar, ainda mais sendo jovem. Mesmo sendo “burro”, visto que burro também pensa. Lá estava ele pensando e correndo atrás daquilo que lhe era caro, ainda que fosse somente naqueles parcos momentos.
Ah! Falando em sempre querer mais. Vem-me a memória um pequeno verme, que habita as águas doces e tem ventosas com que se liga aos animais a fim de sugar-lhes o sangue, chamados sanguessuga. Refiro-me aquele individuo que explora outro, pedindo-lhe, ou, tomando-lhe constantemente dinheiro.
Como disse o ser humano sempre quer mais do que se pode ter. Assim este me dá, me dá é continuamente insaciável. Na moderna medicina não se pode faltar sangue. E sangue é o que querem as sanguessugas, e bem como os muitos dos nossos representantes no congresso nacional, que assim são chamados. Seriam somente eles, os políticos, os vampiros? Sangue não é o que querem, mas sim, anseiam o vil metal. Pensando bem, sangue sim! Sangue de um povo sofrido.
Sofre o povo pela sua desesperança, ou quiçá pela sua pseudo-esperança? Crêem em uma economia forte, com mais e melhores oportunidades de emprego. Emprego até que tem, mas e a divisão do quinhão? Quem sabe os desvalidos sonham com o homem mais solidário, amigo e amoroso. A periferia das cidades com os seus becos e vielas, com sua falta de saneamento básico e de lazer. Provida de transporte precário. Ensino que não ensina. Este quadro sombrio nos lança a uma busca intangível.
Pintar um quadro negro sem brilho e beleza é fácil, mas o que queremos ver e ter é o Éden. Por acaso todo o nosso esforço não está concentrado em ter e estar no paraíso terrestre? Quando deveríamos almejar também ou principalmente o celestial.
O paraíso para o condutor de biga naquele momento era a adrenalina, produzida pela velocidade, pelo vento e o perigo. Já para as sanguessugas de plantão, estejam onde estiverem, é ter cada vez mais, doa a quem doer. Que se danem os outros, no entanto, elas é que na verdade mais sofrem, pois as buscas não satisfeitas às tornam pobres e nuas. Miseráveis, ainda que habitem em mansões.
Quanto aos desvalidos que permeiam as periferias, e aos que habitam as favelas são penalizados pela sua própria má sorte, pelos seus sonhos não alcançados ou pela falta deles.
Mas aí vem Jesus e diz:
Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, pois eles receberão a terra por herança.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.
Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus.
Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.
Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.
Assim, meus amigos e companheiros alegrem e regozijem, pois Jesus nasceu. Como ele é a luz, tendo-o não ficaremos em trevas. Natal é tempo de paz e não de ansiedade e correrias mil, em busca sabe se lá do quê.
Tenhamos paz, a paz que vem da manjedoura.
Com temor compartilho com cada um de vocês esta humilde crônica, crendo que serão parcimoniosos e dela poderão usufruir.
Um forte abraço e até breve.
Daniel Cruz Bonfim
Campinas, 06Set11.