domingo, 22 de janeiro de 2012

O PRÍNCIPE DO SINALEIRO

Posso depender de Deus para me suster?
         A temperatura durante a semana foi muito alta, o calor aliado à baixa humidade deixava um forte mal estar e dificultava a respiração. Mas, no final de semana tudo mudou e a temperatura em pouco mais de três horas caiu cerca de sete graus centígrados. Os fortes ventos fez aumentar a sensação de frio.
         O trajeto de casa até o supermercado, embora próximo, sempre é feito de carro, mas naquele domingo não havia veículos disponíveis, pois cada um dos dois filhos havia tomado posse deles. Resolvemos eu e Beth caminharmos até o mercado para comprarmos o nosso almoço de domingo. No interior do apartamento a sensação era de muito frio, principalmente após o banho, embora o Sol tenha despontado com um brilho adoravelmente gélido. Já na rua, vi que acertara na escolha do short e de uma camiseta de manga curta.
         No farol da avenida, próximo ao supermercado, sempre com grande fluxo de veículos durante a semana, normalmente vemos três ou quatros pedintes e “limpadores” de para-brisas de carros. Mas, na manhã daquele domingo vimos somente um limpador de para-brisas.
         Homem de meia idade, estatura mediana, moreno claro, barba, e com uma magreza e a postura do filho pródigo sem o anel no dedo. O seu semblante altivo deixava claro que aquele local e aquele serviço humilhante o constrangia profundamente. Pareceu-me que aceitava sua condição junto à pocilga com intensa relutância, o seu olhar estava fixo no horizonte, perdido na sua revolta consigo mesmo e com Deus.
         Do supermercado retornamos com algumas sacolas cheias de poucos víveres, vimos ainda no mesmo sinaleiro, que lá permanecia o príncipe do chiqueiro. Ele estava com sua garrafa pet com água e um pequeno rodo. Suava prodigamente e certamente a barriga pedia com muita veemência algumas bolotas, pois a fome apertava. Mas, pareceu-me que aquela manhã fora caprichosamente ingrata com o príncipe, pois a sua tristeza denunciava que havia recebido parcas moedas. Não só pelos poucos veículos que transitava pelo local, mas também pela rotineira indiferença com a dor alheia, notadamente nas grandes cidades.
        Já durante alguns dias vinha meditando se verdadeiramente vivia na dependência divina para prover a minha subsistência. Sempre cri, e por vezes teoricamente e outras poucas vezes na prática que a fonte do meu sustento e da minha família não era o Estado, pois fui por vinte e oito anos funcionário público, mas sim o Senhor Deus.
        Atualmente sou vendedor comissionado autônomo, ou seja, se vendo recebo algum dinheiro e do contrário, NÃO. Olhando a minha situação de vendedor e pensando no príncipe do sinaleiro comecei analisar com mais profundidade a minha crença na dependência da providência divina. Cheguei à conclusão que tenho vivido repleto de teoria e pouca prática. Dizia: “Deus tu és a fonte do meu sustento”, mas na verdade meu verdadeiro deus era o Estado que infalivelmente depositava todo quinto dia útil o meu salário na minha conta bancária. A confiança era total no “deus Estado”. Para o Senhor Deus sobrava à dificuldade na entrega do dízimo e as lamúrias contra os patrões e os parcos recursos.
        Quando os negócios vão bem, o dinheiro passa a ofuscar os nossos olhos, rapidamente, como se não estivéssemos conscientes, passamos andar com o peito estufado, cheios de orgulho. Então, o que demonstramos com está postura é que a minha boa oratória e capacidade de argumentação foram preponderante para a boa conclusão das vendas. É isto que passamos de forma “inocente e humilde” e com o queixo erguido para os demais dizemos: “Fui eu, eu sou o máximo”. Para um observador mais atento e obviamente patente para Deus, estamos dizendo: “Eu consegui”. O observador diz: “Louco, deixou Deus de fora”. Por acaso arrogante e incauto não é o Senhor Deus que “alimenta as aves e dá beleza ímpar as flores?” Então não é Ele que criou e sustenta o Universo? 
        Muitos “funcionários dos sinaleiros”, inconscientemente, usam uma estratégia psicológica. Quando deixam naqueles que “pagam pelo serviço de limpeza do para-brisa” o sentimento de obrigação de entregar uma moedinha e reforçam ao dizer: “Deus te abençoe senhor”. Não é Deus que está provendo mais uma moedinha, mas a incapacidade do motorista de dizer não e o de permitir ser constrangido a “pagar pelo serviço".
         Com o mercado aquecido, com o foco no cliente e com as técnicas corretas podem ocorrer boas vendas. Mas seja com o mercado em alta ou em baixa, somos tentados a confiar na capacidade humana e deixarmos Deus de lado. Disse Deus a Adão: "com o suor do teu rosto comeras". E a Palavra de Deus continua falando: "Então sai o homem à sua obra e ao seu trabalho, até à tarde" (Salmos 104.23). "Pois comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem" (Salmos 128.2). Somos instados a trabalharmos com afinco e conhecermos com excelência a nossa atividade para que os bons resultados apareçam. Mas, mesmo que comecemos pela teoria e que continuemos caminhando pela senda do empirismo, possamos enxergar a verdade nua e crua. Que em algum momento, seja com pouca ou muita dor, possamos conhecer e reconhecer o verdadeiro provedor. Aquele que é criador, dono e sustentador dos mundos, o Senhor Jehová-Jireh, o Deus que prove e proverá.
        Sou mais Tomé que gostaria. Quero ver, tocar, tenho que ser o agente, preciso ter o domínio de tudo e todos. Sim, com o meu trabalho vou ter os recursos necessários para viver. Mas, não posso esquecer que este trabalho e os consequentes recursos auferidos, foram e serão frutos da providência do Deus Eterno.
       Com a mente permeada da teoria, mas principalmente treinada pela prática de depender de Deus para viver, veremos certamente os medos fugirem para o seu lugar de origem, a escuridão. E, então a luz bendita de Jesus trará a tão desejada PAZ. Paz que estará presente quer na bonança, quer na tormenta. Disse Jesus: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”.
        Sim. Posso depender totalmente de Deus para me suster. Afinal, Deus cuida de cada pardal e não deixará de tratar-me com amor e carinho. Pois valho infinitamente mais que um passarinho.        
Fiquemos confiantes e certos da providência divina.
Até breve.

Daniel Cruz Bonfim
Campinas, 06Set11.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CALADO CALOU-SE

A sua compleição física não impunha medo, pelo contrário. Ele não chegava a ser baixo, mas também não se poderia afirmar que era de estatura mediana. No entanto, o seu corpo aparentava certa robustez, sem ser forte. Nem tão pouco era magro ou obeso.
Pessoa calada e que demonstrava caminhar resoluto para determinado objetivo e nós que o cercávamos não sabíamos. Mas desgraçadamente viemos saber.
Como disse a sua aparência não colocava medo, atraia, mas repelia qualquer tentativa de aproximação.
Deus! Nós já temos os nossos próprios problemas, nossas próprias lutas, quer sejam internas ou externas. Que se dane, fique com as suas dificuldades, pois já tenho as minhas. Não verbalizei, pensei e disfarcei. Não quero que vejam o meu íntimo. Ler meus pensamentos. Ah! Isto não. 
Na maior parte do tempo fingimos. Não sabemos quem realmente somos. Enganamos a nós mesmos e os outros e aqui e ali temos sucesso, mas de Ti Senhor, nada podemos esconder. Tu tudo sabes, pois Tu és Deus. O meu intelecto. A minha pseuda inteligência por vezes quer negá-lo, atribuir a existência de tudo ao mero acaso. No entanto, a minha alma não permite. Sabe Senhor? Ela percebe que Tu estas presente. Ela sente o seu calor, o seu amor, mesmo diante de tanta dor. Seja esta dor de quem for. Deus Tu és amor.
Rompera o primeiro casamento, já o segundo cambaleava, mas não encontrava forças para consertá-lo e muito menos para dar cabo dele. Após muitos anos planejava rever o filho do primeiro casamento. Trabalha nas suas folgas e cada centavo que economizava seria destinado para a passagem do reencontro tão almejado.
Nos últimos dias estava falante e sorridente. Estranhamos, mas nada dissemos. Como fazia todas as noites assumiu o seu posto de serviço e seguiu para dar cabo de suas tarefas. Nenhuma suspeita foi levantada. Como sempre saiu calado.
Como demorava em retornar, pela primeira vez foi notado. Mas já era tarde, muito tarde. Coragem ou covardia? O fato é que com sua própria arma calado calou-se.
Estávamos sempre ao seu lado e nada falou da sua dor. Porque é que não percebemos a sua aflição?
Jesus nasceu para nos dar vida. Vida que pode ser traduzida por amor, paz, alegria, bondade, fé, mansidão, comunhão, afeição e esperança no porvir.
Com Cristo nunca ficaremos calados, a não ser para ouvi-lo, e viveremos para sempre.

Jundiaí, 25 de dezembro de 2009.
Campinas, 11 de janeiro de 2012.

Bonfim