sábado, 15 de outubro de 2011

UMA RODA ESPECIAL

Uma roda? Seria uma bela roda de ferro com um pneumático amortecendo os solavancos de uma carroça interiorana? Quem sabe o quê vem à mente ao falarmos de roda, seja uma imponente roda de madeira de um velho carro de boi? Pois é, você já percebeu que podemos continuar a especular falando da roda do automóvel popular, e dos luxuosos até os de altas performances, utilizados nas mais importantes competições automobilísticas. Incluindo se aí os caminhões e tratores.

Bem, na verdade falo de uma roda de amigos. Um grupo de pessoas. Não é um grupo qualquer, fechado, nem tão pouco seletivo. Na verdade os que vão se aproximando é que determinam se participarão ou não. Suas características básicas são a simplicidade e o total desprezo pelo relógio.
Ah! O relógio, você que nos mostra o início e o fim. Incomoda-nos e mostra a hora de chegar e de partir. Por que você tem que ser tão autoritário? Tão controlador. Vê se dá um tempo. Pare um pouco. Descanse. Se não pelo menos, diminua o ritmo. Vou te mostrar que é possível fazê-lo.
Imagine uma imponente casa interiorana de madeira. Construída na década de sessenta ou setenta. Pois é, já não é tão jovem, mas continua firme. Reformada, remodelada, alterada, pintada. Certamente pintada com tinta à óleo que preserva melhor a sua madeira das intempéries.
Paremos um pouco para nos lamentar e chorar. É que outrora tínhamos fartura de frondosas e belas árvores, e agora escassez. Árvores tais como: angico, faveiro, aroeira, jatobás, ipê-roxo, ipê-amarelo e a favorita para construções, a peroba. Está última madeira é dura, maciça, difícil de serrar, ainda mais quando as modernas serras elétricas não estavam disponíveis no mercado. O que imperava para a derrubada das árvores era o traçador, que era uma serra grande manuseada por duas pessoas. Os dois madeireiros identificavam as árvores pela sua copa, e diante da escolhida, ajoelhavam-se como pedindo perdão, ignorantes da extensão da atrocidade que estavam prestes a praticarem. Então, diante da indefesa e majestosa árvore, lançavam-se lentamente num ritmado vai-e-vem sangrando-a até a morte. Somente paravam quando ela caia inerte ao solo.
Depois de tombada, e após o grito de madeira, e de ser cruelmente esfaqueada sem nenhuma cerimônia e diante da sua família e coirmãs. No seu país, na sua terra e no seu quinhão. O corpo inerte, que outrora nos abençoava de multiformes maneiras, agora era lançada no carro fúnebre, ou seja, o caminhão madeireiro que seguia resoluto para o local do esquartejamento. A serraria. Elas, as árvores, as toras iam para as grandes serrarias e bem como as serrarias menores chamadas pica-paus e somente então as tábuas, as vigotas, os caibros e ribas ficavam a disposição do carpinteiro para usá-las nas construções das casas. E era aí que Antenor, o carpinteiro, usava com maestria o seu serrote afiado e previamente lubrificado com vela ou banha de bovino. Serrava e serrava como o mais puro dos inocentes. Nem se quer perpassava pela sua mente que era participe direto na matança inconseqüente. Nem mesmo o Paulo, o dono da futura casa se dava conta. É bem verdade que na velhice, agora consciente das mortes, até porque antevia a sua própria, lamentava-se. Mas desgraçadamente para as que partiram nada se poderia fazer.
A peroba é uma madeira altamente durável, a preferida para as construções, mas o angico também era muito bem quisto, mui especialmente pelas estradas de ferro. As serrarias produziam com abundância os dormentes, os quais eram usados para que neles fossem apoiados os trilhos. E sobre o trilho uma potente máquina puxa determinada dezena de vagões, carregados e pesados.
Que insanidade meu Deus. Quanto desperdício. Uma brutalidade desmedida, mesmo agora, escrevendo experimento as consequências desde extermínio ariano contra os judeus. Há um calor excessivo. Não há brisa, impera a pressão atmosférica, e avizinham-se as fortes pancadas de chuva da tarde. E com elas dissabores na caótica metrópole.
Então relógio, veja só, diante da bela e aconchegante casa de madeira há uma frondosa árvore viva. Como se fora um pássaro na gaiola, fora do seu habitat, fora da floresta, longe da sua gente. Mas mesmo assim generosamente ela oferta a sua proteção contra os raios solares da tarde.
Portanto é nesta sombra que temos uma roda especial. Roda esta alheia, indiferente a você déspota controlador do tempo. Indiferente também com a história, falar da segunda grande guerra, prá que? Temos você amiga árvore nos abraçando com sua sombra e entorpecendo a nossa mente.
É neste local precioso que a roda especial quase todas tardes se forma para lenta e despreocupadamente saborearem o tereré. Tereré é um refresco de mate que se toma com bombilha, preparado com água fria. É neste local quase sagrado, que de mão em mão a cuia transita e os amigos jogam conversa fora.
As histórias se repetem, mas são como se fossem contadas pela primeira vez. Há um clima celestial, é como se houvesse um fundo musical de um coro angelical a entoarem belas canções de louvor divinal.
Primeiro chega alguém com a cuia e a jarra cheia de água e gelo. Então, com o cerimonial próprio prepara-se o refresco, como se fora o momento antes de se servir o pão e suco da uva no memorial da morte, crucificação e ascensão de Jesus Cristo. Ali os irmãos, ou seja, os amigos pacientemente aguardam respeitosamente a sua vez de deliciarem o néctar dos deuses. Nem tanto pelo sabor, nem mesmo pelo frescor auferido. Mas a essência de tudo era a roda. Roda especial. Vizinhos, parentes e amigos em uma troca de calor intensa, sem nem mesmo se aperceberem de tal. Quanto mais subia a temperatura mais se precisava do refresco divino.
Em todo o tempo. Que estranho. Esqueça o tempo. Em total desprezo ao tempo, ou seja, ao relógio. Eles permaneciam juntos, em roda e na roda. Hoje, olhando aquelas rodas, me parece que sem saberem eles queriam voltar ao Édem. Desfrutar da companhia com o Pai. Que desejo maravilhoso. Pai se não podemos voltar, queremos ir para as mansões celestiais e estar contigo. Que possamos saboreá-lo, não somente as tardes, mas em todo o tempo. Opa! Lá não tem tempo. O relógio não existe, o imperador, o ditador foi ferido mortalmente, desapareceu. 
Pois é, a roda especial existiu e pode continuar a existir. Seja debaixo de que árvore for, mas a melhor e incomparável roda é quando pudermos estar no abrigo eterno da Árvore da Vida. Onde o Deus Eterno permitira que nos refresquemos para todo o sempre da água que jorra do Rio da Vida e cuja fonte eterna sai do seu trono majestoso. 
Até lá meus amigos.
Campinas (SP), 24 de dezembro de 2009.

Bonfim

domingo, 9 de outubro de 2011

O ONZE DE DEUS

O culto vespertino da igreja que frequentamos foi mais um “hoje é domingo”. Não notei nenhuma diferença substancial nele. A culpa não é do “pé de cachimbo” é da “gente que é fraco”. As mensagens do púlpito e musicais na maior parte das vezes reputo como excelentes e ungidas. Logo, sou eu que vejo “o buraco fundo”, a rotina.
Este não era e não poderia ser mais um dia rotineiro dominical. Na verdade todos estavam pesarosos e reflexivos, pois completava o décimo ano do violento e “incompreensivo” ataque às torres gêmeas. Mais um onze de Deus. As aterradoras imagens permeiam a telinha e reforçam o onze. A culpa não é do dia onze, mas da escolha, infeliz escolha.  
Mas este domingo teve algo que incomodou, foi diferente, ocorreu um tremor de escala sete, ou talvez oito. O edifício da rotina tremeu. No final da tarde a esposa esteve face-a-face com o desespero de uma mãe e mulher. E diante de tal aflição e grito de dor, o que fazer? Trazia o medo estampado no semblante, o corpo alquebrado e a voz vacilante.
De há muito um forte temporal estava formado no alto da colina. Víamos as nuvens negras e nos abrigamos. Já ela, olhava as nuvens tenebrosas e se encolhia trêmula. O minuano soprava intensamente e calafrios percorriam o seu corpo já tão fragilizado. Buscou por abrigo, mas todos os dormitórios de hotéis e estalagens já estavam ocupados. Cambaleante e sem rumo chegou a um estábulo.
O temporal não tardou e uma torrente de água desceu copiosamente colina abaixo. A correnteza chegou e atingiu a sua face já avermelhada, e um forte estalido se fez ouvir. O rosto jovial ruboresceu ainda mais e encharcou. A enxurrada rompeu abundantemente e as barreiras naturais e artificiais, a muito levantadas, vieram abaixo.  As lágrimas não se fizeram de rogada e produziram uma limpeza inicial.
Mas há determinado acumulo que não sai somente com água, mesmo que seja muita água. Tal purificação dar-se-á somente com água viva e amor eternal.
Conta-se que: “Em um onze de tormenta, no alto das rochas, em seu abrigo, estava uma ave protegida. E nas águas revoltas do mar, logo abaixo, um náufrago com o horror estampado no rosto dava suas últimas braçadas. Enquanto a ave experimentava a mão protetora divina o nadador afundava”. Quer estejamos caminhando nas ondas bravias ou nas rochas, a verdadeira segurança, exige que atendamos o chamado do mestre e mantenhamos o olhar fixo nele.
Nunca na história vimos humanismo tão excessivo. O bem estar e a satisfação do homem hodierno parecem que chegou ao seu ápice. Ainda que ignore os milhões que vivem na pobreza absoluta. Por maiores, melhores, belas e confortáveis que sejam as mansões que o homem possa construir, jamais chegará a ser como as Mansões Celestes. Mas, na contramão do prazer, estes mesmos nadadores e medalhistas olímpicos não estão conseguindo enxergar e muito menos chegar à borda da piscina. Falta-lhes força para superar as caudalosas ondas. Falta-lhes a direção do Consolador e a presença do Príncipe da Paz.
Diante deste implacável dia onze, timidamente me coloco a orar: Deus de amor e misericórdia este dia é seu, como todos os demais. Nos criou para sermos felizes, mas estragamos tudo. Escolhemos a dor a gozar da sua companhia gloriosa e cheia de paz. Peço que olhes para esta mãe e esposa, e para todas as demais que choram e se angustiam. O Senhor nos ama com amor eterno. Detenhas, por misericórdia, a tormenta. Dê ordem para que ela amaine. Por Jesus Cristo teu filho amado. Que assim seja.
Daniel da Cruz Bonfim
Campinas, 11Set2011.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

ANTES QUE O SONO CHEGUE


Antes que o sono chegue, estou aqui sentado na cama com a esposa deitada ao lado, propositalmente me pus a pensar na minha infância, na casa de meus pais, nossa casa, e em meus pais e irmãos.
Foi em uma bela casa de madeira, que eu e meus cinco irmãos crescemos. Meu próprio pai cortou as árvores e entregou para que a serraria preparasse as tábuas, vigotas, caibros e ripas. Mas, como não poderia deixar de ser, cada um ao seu tempo abandonou a casa da árvore.
Nesta casa mágica tínhamos o nosso próprio Jardim do Éden. Ele ficava no fundo do quintal, lá tínhamos touceiras de cana, abacateiro, limoeiro e uma generosa horta. Na horta cultivávamos couve, cebolinha, cenoura e almeirão. O almeirão, preferíamos consumir quando as folhas ainda estavam tenras, bem pequenas, pois o sabor é mais suave e prazeroso. Mas a preferência nacional era a alface. Quando colhíamos alface, não importava que fosse alface dos tipos lisa, crespa ou americana, tínhamos que encher uma bacia. Uma baciada de alface não era páreo para os seis filhos, mamãe e papai, nós simplesmente devorávamos. Arroz, feijão, farinha de mandioca fina e torrada e a carne suína eram consideradas apenas acompanhamento. O prato principal era mesmo a alface.
Tínhamos também nesta casa encantada pais amorosos e tementes a Deus, tínhamos o conforto possível e fartura de alimento. Tudo com muita simplicidade. Não faltava disciplina à moda antiga, tão criticada hoje, mas que fez de cada um de nós pessoas dignas e úteis para a sociedade. Se apanhássemos na rua, apanharíamos em casa. Andar com más companhias, isso não. Cigarro e bebida alcoólica, nem pensar.
Era uma das suas paixões, ler a Bíblia e compartilhar do amor de Jesus.  Tinha e fazia amigos com facilidade.

Já as manhãs de domingo eram sagradas. Papai acordava os mais sonolentos com um amoroso sacolejo e sempre estava assobiando belos hinos do cantor cristão. Ouço ainda hoje os seus assobios. Agora, papai faz parte do coro mor celestial de assobios. Todos prontos com café tomado, que na maioria das vezes era chá-mate e lindos e saborosos pães caseiros, e sem mais delongas caminhávamos cerca de quinze quarteirões, pois às 9h dava início a Escola Bíblica Dominical.


Papai era um exímio matemático, realmente tinha facilidade em fazer contas e as calculavam de cabeça, mas se restringia as quatro operações: adição, subtração, divisão e multiplicação. Quanto à leitura, gostava do texto sagrado. Sentava-se à mesa da cozinha e com uma postura totalmente reverente, punha-se a ler com dificuldade e em voz alta a Palavra Divina. Mesmo tropeçando nas letrinhas, lia e compartilhava com todos. Era uma das suas paixões, ler a Bíblia e compartilhar do amor de Jesus.  Tinha e fazia amigos com facilidade.
Comermos juntos, ir à igreja, passar férias em uma fazenda no Estado do Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul, próxima do rio Paraná, levantar pela manhã e tomar leite puro, andar a cavalo, pescar lambaris e brincar a exaustão nos riachos, tudo, tudo era muito especial. Os momentos que ficaram marcados de forma indelével na minha memória eram as tardes que passava na horta que ficava no espaçoso quintal de nossa casa encantada. Mais especificamente quando assumia a tarefa de aguar, ou seja, regar as verduras e hortaliças. Ah! Que saudades daquela sensação tão terna e repleta de paz.
Antes que o sono chegue, deixei o aconchego da minha cama e voltei para o Jardim do Éden. A horta.
A tarefa auto-imposta de molhar as plantas, ainda hoje, quando experimento momentos de retiro e volto ao Éden, como agora, me faz muito bem. Às tardinhas, enquanto regava as verduras ouvia o barulho da água atingindo as folhas. E o que dizer do cheiro das plantas e da terra. Aquele local era mesmo o Jardim do Éden, pois conversava com Deus, não sabia à época, mas sei agora. Aprendi a língua celestial e era fluente. Cresci, mudei de país, passei a viver com um povo de língua e costumes diferentes. Para aprender as novas palavras e pronúncia, fui deixando gradativamente de lado a língua do céu e os gostosos bate-papos com o Dono do Jardim.
Mais tarde o reencontrei, fora do Jardim é verdade, e agora tenho dificuldades com a compreensão e fala da língua, que outrora tão bem dominava.
Meu papai atualmente fala com perfeição a língua celestial, e ele será meu professor. Lá usarei um regador de ouro cheio da água da vida para molhar o Jardim Celeste.
O sono chegou, vou dormir com a letra do hino sacro na mente:
Lá verei meu pai.
Lá verei minha mãe.
Lá verei Isaac e Jacó.
Lá verei Abraão, e serei seu irmão.
Lá verei meu Jesus, com as marcas nas mãos.
Lá verei o meu amigo Paulo.
Lá verei Pedro, Tiago e João.
Mas primeiro eu quero ver meu Mestre
E amá-lo de todo meu coração.
         Bom sono e sonhos. Até breve amigos.

         Daniel Cruz Bonfim
         Campinas, 07Set2011.

PAPAI ESTOU AQUI


O sentimento de segurança que temos em um condomínio nas grandes cidades é muito desejado. Além da segurança as pessoas buscam tranquilidade. Mas nem sempre é possível deixar de produzir e ouvir barulhos. Os sons podem ser incômodos, irritantes, estimulantes e reflexivos.
            Pela manhã acordei e através da janelinha do banheiro o som da voz de um menino de no máximo três anos de idade atingiu-me em cheio. Nada mais belo do que a voz de um inocente, especialmente quando demonstra fragilidade e carinho.
            “Papai estou aqui”, gritou o infante. Aveludada e penetrante ela chegou ao âmago da minha alma. Talvez pelo fato de ser aspirante a vovô, ou por serem as primeiras horas do dia e por não ter sido ainda contaminado pelos mensageiros de más notícias. “Papai estou aqui”, a sua vozinha entrou no meu coração e trouxe-me profunda sensação de paz e reflexão. 
            Por ser pequenino e frágil o seu papai o deixou no raio de segurança ao alcance dos olhos e das mãos. O menino não estava com medo e nem apavorado. Mas a preocupação entrou no seu coraçãozinho. Se o seu paizinho demorasse um pouquinho mais e tivesse que chamá-lo pela segunda e terceira vez, certamente que passaria a gritar e chorar. Aí o medo teria chegado ao seu pequeno coração.
            Crescemos dia-a-dia e ganhamos autonomia, e pouco a pouco nos sentindo auto-suficiente, donos do próprio nariz. Enquanto o vento não soprar caminharemos de cabeça erguida e confiantes. Mas quando os trovões e relâmpagos se juntarem aos ventos, os nossos gritos de desespero ecoarão ao longe. Por muitas vezes repetiremos: Papai estou aqui, Papai estou aqui, Papai estou aqui, por favor, venha socorrer-me. Muitas lágrimas rolarão.
            Quando desobedecemos nos afastamos do Pai e ficamos sem chão. Mas a verdade é que jamais sairemos do raio de segurança do Papai do Céu. Deus é amor. “Com amor eterno te amei” (Jr 31.3). Podemos rejeitar o seu amor, errar e entristecê-lo, mas ele não nos abandona. Basta gritarmos por socorro, e o Pai virá em nosso auxílio.
            Sou pecador e frágil, e uma leve brisa é suficiente para amedrontar. Enquanto viver não deixarei de clamar: Papai estou aqui. Papai te amo. Então ouvirei a voz doce e suave do Senhor, filho: “Com amor eterno te amei; por isso, com benignidade te atrai”.
            Papai!

Daniel Cruz Bonfim
Campinas, 05Out11.