quinta-feira, 6 de outubro de 2011

ANTES QUE O SONO CHEGUE


Antes que o sono chegue, estou aqui sentado na cama com a esposa deitada ao lado, propositalmente me pus a pensar na minha infância, na casa de meus pais, nossa casa, e em meus pais e irmãos.
Foi em uma bela casa de madeira, que eu e meus cinco irmãos crescemos. Meu próprio pai cortou as árvores e entregou para que a serraria preparasse as tábuas, vigotas, caibros e ripas. Mas, como não poderia deixar de ser, cada um ao seu tempo abandonou a casa da árvore.
Nesta casa mágica tínhamos o nosso próprio Jardim do Éden. Ele ficava no fundo do quintal, lá tínhamos touceiras de cana, abacateiro, limoeiro e uma generosa horta. Na horta cultivávamos couve, cebolinha, cenoura e almeirão. O almeirão, preferíamos consumir quando as folhas ainda estavam tenras, bem pequenas, pois o sabor é mais suave e prazeroso. Mas a preferência nacional era a alface. Quando colhíamos alface, não importava que fosse alface dos tipos lisa, crespa ou americana, tínhamos que encher uma bacia. Uma baciada de alface não era páreo para os seis filhos, mamãe e papai, nós simplesmente devorávamos. Arroz, feijão, farinha de mandioca fina e torrada e a carne suína eram consideradas apenas acompanhamento. O prato principal era mesmo a alface.
Tínhamos também nesta casa encantada pais amorosos e tementes a Deus, tínhamos o conforto possível e fartura de alimento. Tudo com muita simplicidade. Não faltava disciplina à moda antiga, tão criticada hoje, mas que fez de cada um de nós pessoas dignas e úteis para a sociedade. Se apanhássemos na rua, apanharíamos em casa. Andar com más companhias, isso não. Cigarro e bebida alcoólica, nem pensar.
Era uma das suas paixões, ler a Bíblia e compartilhar do amor de Jesus.  Tinha e fazia amigos com facilidade.

Já as manhãs de domingo eram sagradas. Papai acordava os mais sonolentos com um amoroso sacolejo e sempre estava assobiando belos hinos do cantor cristão. Ouço ainda hoje os seus assobios. Agora, papai faz parte do coro mor celestial de assobios. Todos prontos com café tomado, que na maioria das vezes era chá-mate e lindos e saborosos pães caseiros, e sem mais delongas caminhávamos cerca de quinze quarteirões, pois às 9h dava início a Escola Bíblica Dominical.


Papai era um exímio matemático, realmente tinha facilidade em fazer contas e as calculavam de cabeça, mas se restringia as quatro operações: adição, subtração, divisão e multiplicação. Quanto à leitura, gostava do texto sagrado. Sentava-se à mesa da cozinha e com uma postura totalmente reverente, punha-se a ler com dificuldade e em voz alta a Palavra Divina. Mesmo tropeçando nas letrinhas, lia e compartilhava com todos. Era uma das suas paixões, ler a Bíblia e compartilhar do amor de Jesus.  Tinha e fazia amigos com facilidade.
Comermos juntos, ir à igreja, passar férias em uma fazenda no Estado do Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul, próxima do rio Paraná, levantar pela manhã e tomar leite puro, andar a cavalo, pescar lambaris e brincar a exaustão nos riachos, tudo, tudo era muito especial. Os momentos que ficaram marcados de forma indelével na minha memória eram as tardes que passava na horta que ficava no espaçoso quintal de nossa casa encantada. Mais especificamente quando assumia a tarefa de aguar, ou seja, regar as verduras e hortaliças. Ah! Que saudades daquela sensação tão terna e repleta de paz.
Antes que o sono chegue, deixei o aconchego da minha cama e voltei para o Jardim do Éden. A horta.
A tarefa auto-imposta de molhar as plantas, ainda hoje, quando experimento momentos de retiro e volto ao Éden, como agora, me faz muito bem. Às tardinhas, enquanto regava as verduras ouvia o barulho da água atingindo as folhas. E o que dizer do cheiro das plantas e da terra. Aquele local era mesmo o Jardim do Éden, pois conversava com Deus, não sabia à época, mas sei agora. Aprendi a língua celestial e era fluente. Cresci, mudei de país, passei a viver com um povo de língua e costumes diferentes. Para aprender as novas palavras e pronúncia, fui deixando gradativamente de lado a língua do céu e os gostosos bate-papos com o Dono do Jardim.
Mais tarde o reencontrei, fora do Jardim é verdade, e agora tenho dificuldades com a compreensão e fala da língua, que outrora tão bem dominava.
Meu papai atualmente fala com perfeição a língua celestial, e ele será meu professor. Lá usarei um regador de ouro cheio da água da vida para molhar o Jardim Celeste.
O sono chegou, vou dormir com a letra do hino sacro na mente:
Lá verei meu pai.
Lá verei minha mãe.
Lá verei Isaac e Jacó.
Lá verei Abraão, e serei seu irmão.
Lá verei meu Jesus, com as marcas nas mãos.
Lá verei o meu amigo Paulo.
Lá verei Pedro, Tiago e João.
Mas primeiro eu quero ver meu Mestre
E amá-lo de todo meu coração.
         Bom sono e sonhos. Até breve amigos.

         Daniel Cruz Bonfim
         Campinas, 07Set2011.

2 comentários:

  1. Daniel, este seu texto me fez recordar minha infância. Quando eu era criança, sempre que possível visitava meus avós. Ele era pastor.
    Caro Daniel, seu texto, contou minha história, praticamente.
    Um abraço e, um "interiorano", A PAZ DO SENHOR!

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  2. Caro Kleber,

    Procuro experimentar o presente debaixo das misericórdias do Deus Eterno e quanto ao passado vejo o seu amor divinal. Amazing Grace.
    Graça e paz.

    Bonfim

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